O que uma visita a uma APAE revelou sobre o tamanho de um problema que o Brasil ainda não mapeou?

Diego Velázquez
Diego Velázquez 6 Min de leitura
Franco Douglas Lima Dias

Franco Douglas Lima Dias não esperava o que o Projeto Visão em Dia encontrou quando chegou à Associação de Pais e Amigos dos Excepcionais de Ferraz de Vasconcelos. A ação estava planejada como mais uma etapa de expansão do programa para instituições especializadas. O que aconteceu dentro daquela instituição, no entanto, foi além do que qualquer triagem convencional costuma revelar: dois alunos diagnosticados com ceratocone, uma doença degenerativa da córnea, em crianças que jamais haviam passado por um exame oftalmológico. Uma mãe que descobriu, naquele momento, que o filho tinha miopia.

Nenhum desses casos era visível antes da triagem. Não havia queixa formal, não havia histórico médico, não havia nenhum registro que indicasse a necessidade de investigação visual. O problema existia, avançava e permanecia completamente fora do radar da instituição, da família e do sistema de saúde. A diretora da APAE, Lara Benute, resumiu o que aquela tarde revelou com uma frase precisa: “Algo que só foi possível identificar por causa do atendimento realizado aqui.”

O episódio levanta uma questão que vai muito além daquela instituição específica.

Quantos casos assim existem?

A APAE de Ferraz de Vasconcelos não é uma exceção. É um retrato. As APAEs brasileiras atendem crianças e jovens com deficiência intelectual e múltipla, uma população que depende de cuidados especializados em diversas áreas e que, na maior parte dos casos, não tem condições financeiras de acessar serviços de saúde fora do que o sistema público oferece. A saúde ocular raramente está entre as prioridades atendidas, não por negligência, mas porque a lista de demandas é longa e os recursos são escassos.

O resultado é uma lacuna silenciosa. Crianças com problemas visuais não identificados que frequentam instituições que não têm como rastrear essas condições sem apoio externo especializado. Quando o Projeto Visão em Dia chegou à APAE de Ferraz de Vasconcelos, o que encontrou foi exatamente isso: uma necessidade real que ninguém havia conseguido mapear antes.

Por que crianças com deficiência têm ainda mais dificuldade de comunicar problemas visuais?

Para crianças com deficiência intelectual, a barreira do diagnóstico visual é ainda mais alta do que para a população geral. Muitas dessas crianças têm dificuldade de descrever o que percebem ou sentem. Elas não conseguem dizer que a visão está turva, que enxergam mal de longe ou que sentem desconforto ao tentar focar. Esse silêncio involuntário faz com que sinais que em outra criança poderiam levantar suspeitas passem completamente despercebidos.

Franco Douglas Lima Dias
Franco Douglas Lima Dias

A triagem especializada resolve exatamente esse problema. Ela não depende do relato da criança. Ela identifica a condição diretamente, por meio de exames que revelam o que o paciente não consegue verbalizar. Nas ações do Projeto Visão em Dia, esse modelo de triagem ativa funcionou como precisava: encontrou o que ninguém sabia que estava lá.

O que os números da ação na APAE revelam sobre acesso

Naquela visita à APAE de Ferraz de Vasconcelos, 18 óculos foram entregues aos alunos da instituição. Cada par foi resultado de uma avaliação individualizada, não de uma distribuição genérica. Para Franco Douglas Lima Dias, que desenvolveu ceratocone por falta de diagnóstico precoce, encontrar a mesma condição em crianças daquela instituição não foi apenas um dado clínico. Foi a confirmação de que o projeto estava chegando exatamente onde precisava chegar.

A expansão do Visão em Dia para as APAEs representa uma camada adicional de alcance dentro de um programa que já havia ultrapassado 5 mil atendimentos em escolas regulares. Cada novo ambiente que o projeto alcança revela um novo conjunto de casos que o sistema convencional não consegue enxergar.

O que esse episódio diz sobre como o Brasil lida com saúde preventiva em populações vulneráveis?

O que aconteceu na APAE de Ferraz de Vasconcelos é, em escala reduzida, um reflexo de uma lacuna estrutural. Há no Brasil populações inteiras cujo acesso a serviços de saúde especializados depende quase exclusivamente da chegada de iniciativas externas. O sistema público não consegue, sozinho, cobrir a capilaridade necessária para alcançar todas essas pessoas. E o mercado privado, por definição, não chega a quem não pode pagar.

É nesse vácuo que projetos como o idealizado por Franco Douglas Lima Dias operam. Não como substitutos do sistema público, mas como uma presença concreta onde o acesso ainda não existe. O que a visita à APAE revelou não foi apenas o tamanho de um problema local. Foi um indicativo do que pode estar acontecendo, sem que ninguém saiba, em centenas de instituições semelhantes espalhadas pelo país.

Autor: Diego Rodríguez Velázquez

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