Novo CIOT da ANTT ganha adesão do mercado e muda a logística no Brasil: o que transportadoras e embarcadores precisam fazer agora

Diego Velázquez
Diego Velázquez 7 Min de leitura

Sistema amplia a rastreabilidade das operações, reforça a fiscalização do frete e exige adaptação de empresas em toda a cadeia logística.

Nos últimos dias, um dos assuntos mais relevantes para o transporte rodoviário de cargas no Brasil foi a consolidação da nova sistemática do Código Identificador da Operação de Transporte (CIOT), administrada pela Agência Nacional de Transportes Terrestres (ANTT). Após um início marcado por dificuldades técnicas, o sistema registrou mais de 534 mil operações em sua primeira semana de funcionamento, indicando rápida adaptação do mercado às novas exigências regulatórias. (Transporte Moderno)

Embora o tema pareça inicialmente restrito às transportadoras, seus efeitos alcançam embarcadores, operadores logísticos, indústrias, varejistas e empresas de e-commerce que dependem do transporte rodoviário para abastecer clientes em todo o país. A nova etapa representa uma mudança importante na forma como as operações passam a ser registradas, fiscalizadas e auditadas.

Para o profissional de logística, a principal dúvida deixa de ser “o que mudou na regulamentação?” e passa a ser “como essas mudanças afetam a operação diária, os custos e a gestão da cadeia de suprimentos?”. É justamente essa resposta que ganha importância diante de um cenário em que tecnologia, conformidade regulatória e eficiência operacional se tornam fatores cada vez mais integrados.

Como o novo CIOT muda a gestão do transporte rodoviário

O CIOT funciona como um identificador eletrônico obrigatório para operações remuneradas de transporte rodoviário de cargas. A nova versão ampliou significativamente o volume de informações registradas, permitindo que a ANTT acompanhe com maior precisão quem contratou o transporte, qual transportador executará o serviço, quais veículos serão utilizados, a origem, o destino e o valor contratado para o frete. (Transporte Moderno)

Na prática, isso representa uma evolução importante na digitalização da logística brasileira. Antes, diversos controles dependiam de cruzamentos posteriores entre documentos fiscais, pagamentos e registros administrativos. Agora, grande parte dessas informações passa a ser integrada desde o início da contratação, reduzindo inconsistências e aumentando a transparência das operações.

Para transportadoras, embarcadores e operadores logísticos, essa integração exige revisão dos processos internos. Sistemas de gestão de transporte (TMS), plataformas de contratação de frete e softwares utilizados pelos departamentos operacionais precisam estar preparados para gerar informações consistentes e sincronizadas com as exigências regulatórias. Quanto maior o nível de automação, menor tende a ser o impacto operacional das novas regras.

Outro aspecto importante é que a rastreabilidade deixa de ser apenas uma ferramenta de gestão para tornar-se também um instrumento regulatório. Empresas que investem em governança logística passam a ter maior facilidade para comprovar conformidade em auditorias, reduzir riscos operacionais e aumentar a confiabilidade das informações compartilhadas com clientes e parceiros.

Fiscalização eletrônica reforça compliance e influencia o custo logístico

Um dos principais objetivos da nova regulamentação é fortalecer a fiscalização do piso mínimo do frete. Com o novo modelo, determinadas operações incompatíveis com as regras da ANTT deixam de conseguir emitir o CIOT, impedindo a formalização de contratações irregulares. (Transporte Moderno)

Esse avanço representa uma mudança relevante para toda a cadeia logística. Em vez de concentrar esforços exclusivamente na fiscalização posterior, a agência amplia o controle preventivo, reduzindo espaço para irregularidades e aumentando a segurança jurídica das operações. Para empresas que atuam dentro das normas, isso tende a criar um ambiente concorrencial mais equilibrado.

Sob a ótica do supply chain, entretanto, também surgem novos desafios. Organizações que ainda utilizam processos manuais ou possuem integração limitada entre sistemas podem enfrentar maior complexidade operacional durante a adaptação. Investimentos em tecnologia, treinamento de equipes e revisão dos fluxos administrativos tornam-se praticamente obrigatórios para manter produtividade e evitar atrasos na contratação dos transportes.

Essa transformação acompanha um movimento mais amplo de digitalização do transporte brasileiro. O mercado observa crescimento contínuo do uso de documentos eletrônicos, integração entre plataformas fiscais, monitoramento em tempo real das cargas e utilização crescente de inteligência de dados para planejamento logístico. O CIOT passa a fazer parte desse conjunto de ferramentas voltadas para uma logística mais previsível e transparente.

O que profissionais de logística devem acompanhar nos próximos meses

A implantação do novo CIOT acontece em um momento de transformação mais ampla da logística nacional. Paralelamente às mudanças regulatórias, o setor acompanha aumento dos investimentos em infraestrutura portuária, crescimento da movimentação de cargas nos portos brasileiros e expansão do transporte ferroviário, enquanto o modal rodoviário continua sendo responsável pela maior parte da movimentação de cargas do país. (MundoLogística)

Dados recentes mostram que o transporte rodoviário permanece responsável por aproximadamente dois terços da matriz logística brasileira, reforçando a importância de iniciativas que aumentem eficiência, segurança e transparência nesse segmento. Ao mesmo tempo, especialistas destacam que ganhos estruturais dependem da integração entre rodovias, ferrovias, hidrovias e portos, reduzindo gargalos históricos da infraestrutura nacional. (MundoLogística)

Instituições como o ILOS também apontam que fatores como renovação da frota, custos do transporte, armazenagem eficiente e digitalização da cadeia de suprimentos continuarão entre os principais temas estratégicos para empresas em 2026. Em um ambiente de margens pressionadas, pequenas melhorias operacionais podem representar ganhos relevantes de competitividade. (ILOS Prime)

Para gestores logísticos, a tendência é que conformidade regulatória deixe de ser apenas uma obrigação legal e passe a integrar indicadores de desempenho operacional. Organizações que conseguirem combinar tecnologia, automação documental, rastreabilidade e planejamento logístico estarão mais preparadas para responder às exigências do mercado e às futuras evoluções regulatórias.

A consolidação do novo CIOT demonstra que a logística brasileira avança para um modelo cada vez mais digital, conectado e orientado por dados. Mais do que cumprir uma obrigação regulatória, empresas de transporte e embarcadores têm diante de si a oportunidade de revisar processos, fortalecer a governança operacional e aumentar a eficiência de suas cadeias de suprimentos. Em um setor no qual velocidade, previsibilidade e confiabilidade determinam competitividade, acompanhar essas mudanças deixa de ser uma escolha e passa a fazer parte da estratégia de qualquer organização que dependa da logística para crescer de forma sustentável.

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