Dependência das rodovias, preço do diesel, problemas de infraestrutura e baixa integração entre os modais ajudam a explicar o peso da logística na economia; setor defende investimentos para reduzir o Custo Brasil
O custo para transportar, armazenar e distribuir mercadorias voltou ao centro das discussões econômicas no Brasil. Dados apresentados durante o Workshop do Custo Brasil na Logística indicam que os custos logísticos representam atualmente cerca de 15,5% do Produto Interno Bruto (PIB). O encontro, promovido pelo Tribunal de Contas da União (TCU) em Brasília, reuniu representantes do setor para discutir gargalos que afetam desde grandes indústrias e transportadoras até pequenos negócios que dependem do deslocamento de produtos pelo território nacional.
A dimensão do problema fica ainda mais evidente quando analisado apenas o transporte de cargas. As estimativas apresentadas no encontro apontam que essa atividade corresponde, isoladamente, a algo entre 9% e 13% do PIB brasileiro. O resultado mostra como a eficiência da infraestrutura está diretamente relacionada à competitividade econômica do país, já que despesas adicionais com combustível, manutenção, seguros e tempo de viagem acabam incorporadas aos custos das empresas.
Para consumidores, esses problemas podem aparecer de maneira indireta nos preços. Uma mercadoria que percorre centenas ou milhares de quilômetros antes de chegar ao supermercado, à indústria ou ao comércio carrega ao longo do caminho diferentes despesas logísticas. Quanto maior o custo dessa operação, maior também pode ser a pressão para que empresas repassem parte dos gastos aos preços finais.
Rodovias ainda concentram grande parte das cargas
Um dos pontos destacados no debate foi a elevada dependência brasileira do transporte rodoviário. Os dados apresentados apontam que algo entre 62% e 86% das cargas do país passa pelas rodovias, dependendo da metodologia considerada. Essa concentração torna a economia particularmente sensível às condições das estradas e aos custos relacionados aos caminhões.
O transporte rodoviário continuará sendo indispensável, especialmente para entregas regionais e para conectar centros de produção aos demais modais. O problema econômico aparece quando viagens muito longas, que poderiam contar com maior participação ferroviária, hidroviária ou de cabotagem, ficam excessivamente dependentes das estradas.
Estradas com problemas de conservação também podem aumentar o consumo de combustível, o desgaste dos veículos e o tempo necessário para concluir uma viagem. Para transportadoras, isso significa custos adicionais com manutenção, pneus e peças. Para produtores e comerciantes, o efeito pode aparecer em fretes mais caros.
Diesel representa cerca de 35% do custo operacional
Outro fator importante é o combustível. Segundo dados da Federação Nacional do Comércio de Combustíveis e de Lubrificantes apresentados no debate, o diesel representa, em média, aproximadamente 35% do custo operacional das empresas de transporte rodoviário.
Essa participação deixa o setor bastante exposto às oscilações dos combustíveis. Alterações nos preços internacionais do petróleo, no câmbio ou na própria estrutura doméstica de preços podem modificar rapidamente as despesas de uma transportadora.
Existe ainda o desafio de repassar essas variações aos contratos. Quando os custos sobem rapidamente e a atualização do frete demora a acontecer, transportadoras podem enfrentar compressão das margens e dificuldades de caixa. Por outro lado, aumentos nos valores cobrados pelo transporte também elevam despesas de indústrias, produtores e comerciantes.
Viagens sem carga também encarecem o transporte
O chamado transporte vazio foi outro problema discutido no workshop. A situação acontece quando um caminhão realiza parte do percurso sem mercadorias, geralmente porque não existe uma carga disponível para a viagem de retorno.
Do ponto de vista econômico, o veículo continua gerando despesas com combustível, motorista, manutenção, pedágios e depreciação, mas sem transportar produtos naquela etapa. Esses gastos precisam ser absorvidos pela transportadora ou incorporados ao preço das operações realizadas com carga.
Melhor planejamento das rotas, plataformas digitais para conectar cargas disponíveis aos veículos e maior integração das cadeias de distribuição podem ajudar a reduzir esse problema. A digitalização da logística, portanto, também passa a ocupar espaço importante na busca por eficiência.
Roubo de cargas aumenta custos e seguros
A segurança também entra na conta. Roubos de cargas provocam perdas diretas para empresas e transportadoras e podem aumentar despesas com seguros, rastreamento, gerenciamento de risco e tecnologias de monitoramento.
Rotas consideradas mais perigosas podem exigir operações especiais e medidas adicionais de segurança. Quando essas despesas aumentam, parte delas acaba incorporada ao valor cobrado pelo transporte.
Por isso, o combate ao roubo de cargas possui também dimensão econômica. Reduzir ocorrências significa diminuir perdas, melhorar a previsibilidade das operações e potencialmente reduzir despesas relacionadas à proteção das mercadorias.
Empresas perdem competitividade
Para o setor produtivo, a consequência mais ampla é a perda de competitividade. Empresas brasileiras precisam incluir os custos logísticos na formação dos preços de seus produtos, inclusive daqueles destinados à exportação.
Essa questão é particularmente importante em um país continental. Produtos agrícolas, minerais e industrializados frequentemente percorrem grandes distâncias entre as regiões produtoras e os principais portos, centros consumidores ou unidades industriais.
Quanto mais eficiente for esse percurso, menor tende a ser o custo para movimentar cada tonelada de mercadoria. Dessa forma, infraestrutura logística deixa de ser apenas uma questão relacionada aos transportes e passa a fazer parte da estratégia econômica nacional.
Integração entre diferentes modais aparece como saída
Entre as propostas apresentadas durante o encontro está a ampliação da integração entre rodovias, ferrovias, portos e hidrovias. O objetivo é utilizar cada modalidade de transporte nas operações em que apresenta maior eficiência.
Ferrovias, por exemplo, podem ser competitivas para grandes volumes transportados por longas distâncias. Hidrovias e cabotagem também oferecem alternativas para determinados corredores, enquanto os caminhões permanecem fundamentais para conectar terminais, cidades e empresas.
Uma rede realmente integrada permitiria que uma mesma mercadoria utilizasse diferentes modalidades durante seu percurso. Esse modelo pode diminuir distâncias rodoviárias, aumentar a capacidade de transporte e reduzir determinados custos operacionais.
Investimentos em infraestrutura entram no centro do debate
A CNC defendeu a priorização dos investimentos em rodovias, ferrovias, portos e hidrovias como uma das estratégias para reduzir os custos logísticos. A melhoria da infraestrutura pode diminuir gargalos e aumentar a produtividade das operações de transporte.
Outro ponto defendido é a modernização das concessões e a criação de condições mais atrativas para investimentos privados. Como os projetos de infraestrutura normalmente exigem bilhões de reais e possuem retorno de longo prazo, segurança jurídica e estabilidade regulatória são fatores importantes para atrair investidores.
O desafio será combinar recursos públicos e privados para desenvolver corredores que apresentem relevância econômica e capacidade de melhorar o escoamento da produção brasileira.
Pequenas empresas também sentem os efeitos
Embora os grandes projetos logísticos estejam frequentemente associados ao agronegócio, à mineração e às grandes indústrias, pequenas empresas também são afetadas. Negócios de menor porte possuem menos capacidade para absorver aumentos repentinos no preço do transporte.
Um pequeno varejista que recebe mercadorias de outro estado, por exemplo, precisa incluir o frete no custo de aquisição dos produtos. Caso essa despesa aumente, o empresário precisa decidir entre reduzir sua margem ou aumentar o preço cobrado do consumidor.
Em regiões mais distantes dos grandes centros de distribuição, esse efeito pode ser ainda maior. Por isso, a redução dos custos logísticos também possui potencial para diminuir diferenças de competitividade entre regiões brasileiras.
Logística eficiente pode ajudar a reduzir o Custo Brasil
O debate realizado em Brasília mostra que logística e economia estão profundamente relacionadas. Um sistema de transporte caro diminui margens empresariais, dificulta investimentos, aumenta despesas de distribuição e pode reduzir a competitividade dos produtos brasileiros.
Reduzir o percentual atualmente associado aos custos logísticos dependerá de uma combinação de investimentos em infraestrutura, manutenção das redes existentes, integração dos modais, modernização das concessões, segurança no transporte e adoção de novas tecnologias.
Com aproximadamente 15,5% do PIB relacionado aos custos logísticos, melhorar a eficiência da movimentação de mercadorias representa uma oportunidade econômica relevante para o Brasil. Mais do que acelerar caminhões, trens ou navios, uma logística eficiente pode significar custos menores para empresas, maior competitividade das exportações e uma cadeia de abastecimento mais produtiva.
Os principais números — 15,5% do PIB em custos logísticos, transporte de cargas entre 9% e 13%, diesel equivalente a cerca de 35% dos custos operacionais rodoviários e elevada dependência das rodovias — constam da divulgação oficial da CNC sobre o workshop. (Portal do Comércio)
Fontes: CNC — Confederação Nacional do Comércio · Diário de Niterói — cobertura do workshop · PIM Amazônia — repercussão em 28/08/2026