Dados do setor mostram crescimento nos portos e nas ferrovias, mas as rodovias ainda dominam a matriz logística do país.
A logística brasileira vive um momento de transição silenciosa. Nos últimos meses, uma sequência de anúncios de diferentes modais de transporte chamou a atenção de operadores, embarcadores e especialistas do setor. Ampliação de rotas de cabotagem, novos projetos ferroviários e uma carteira bilionária de investimentos do governo federal reacenderam a discussão sobre até que ponto o Brasil está mesmo diversificando sua matriz de transportes. A pergunta que fica é simples de formular, mas difícil de responder: a multimodalidade já é uma realidade consolidada ou ainda representa uma alternativa restrita a corredores específicos, ligados a determinadas cadeias produtivas? Os números mais recentes ajudam a entender esse cenário, ao mesmo tempo em que revelam por que a mudança de hábito no transporte de cargas costuma ser mais lenta do que os anúncios sugerem. Entender essa dinâmica é essencial para quem depende do frete, seja embarcador, transportadora ou consumidor final.
O que os números revelam sobre a matriz de transportes
Segundo dados da Confederação Nacional do Transporte, o modal rodoviário ainda responde por 64,85% da movimentação de cargas no país, um patamar que confirma a dependência histórica do caminhão como principal meio de escoamento da produção nacional. Na sequência aparecem o ferroviário, com 14,95% de participação, a cabotagem, com 10,47%, o hidroviário, com 5,25%, o dutoviário, com 4,45%, e o transporte aéreo, com apenas 0,03% segundo dados da Confederação Nacional do Transporte, que mostram essa distribuição entre os modais. Apesar da liderança consolidada das rodovias, alguns indicadores já sinalizam avanços relevantes em outros modais, o que sugere um movimento gradual de reequilíbrio da matriz logística nacional. MundoLogística
Os portos brasileiros movimentaram 103,9 milhões de toneladas somente em janeiro de 2026, volume 12,2% superior ao registrado no mesmo mês do ano anterior de acordo com dados que apontam esse crescimento na movimentação portuária. No transporte ferroviário, o avanço também apareceu nos números: entre janeiro e março de 2026 foram movimentadas 74,69 milhões de toneladas úteis, alta de 4,2% na comparação com o primeiro trimestre do ano passado conforme os dados setoriais divulgados sobre o desempenho das ferrovias no período. Já a cabotagem, historicamente marginal no Brasil, saltou de cerca de 400 mil TEUs transportados em 2008 para aproximadamente 1,5 milhão de TEUs em 2024, um salto de quase quatro vezes em pouco mais de uma década segundo o levantamento sobre a evolução do transporte de contêineres entre portos brasileiros. MundoLogística + 2
Por que a multimodalidade ainda enfrenta resistência
Se os números indicam avanço, o comportamento do mercado ainda caminha em ritmo mais lento. A presidente da Aliança Navegação e Logística, Luiza Bublitz, afirmou que um dos principais entraves para a expansão da cabotagem no Brasil é de natureza cultural, e não apenas estrutural segundo declaração da executiva sobre os desafios de ampliação desse modal. A forte tradição do transporte rodoviário faz com que muitas empresas ainda enxerguem a cabotagem como uma concorrente direta do caminhão, quando na prática ela funciona melhor como parte de uma cadeia logística integrada, complementando outros modais em vez de substituí-los por completo. Brazil Modal
Esse crescimento gradual já tem efeito prático na redução do tráfego rodoviário. Estimativas do setor apontam que o volume movimentado pela cabotagem em 2024 equivaleu a mais de um milhão de viagens rodoviárias que deixaram de ser realizadas conforme estimativas divulgadas sobre o impacto operacional desse crescimento. O investimento privado também acompanha esse movimento: a MRS anunciou aporte de R$ 1,5 bilhão para estruturar sua operação hidroviária integrada, enquanto a Rumo colocou em funcionamento a primeira fase da Ferrovia Estadual de Mato Grosso, projeto que recebeu mais de R$ 5 bilhões nesta etapa de acordo com informações sobre os investimentos anunciados por essas empresas. MundoLogísticaMundoLogística
O que vem por aí para o setor logístico
O poder público também tem participação ativa nesse processo. Em 2026, o Ministério dos Transportes apresentou uma carteira de oito projetos ferroviários considerados estratégicos, além de um novo modelo de financiamento voltado a empreendimentos do setor e a previsão de leilões de terminais logísticos segundo o anúncio feito pelo ministério sobre os planos para o ano. Já o Ministério de Portos e Aeroportos incluiu na agenda novos leilões portuários e projetos de concessão de hidrovias, com destino a rotas como Paraguai, Madeira, Tocantins, Tapajós e Hidrovia Verde. Brazil Modal
O tema deve ganhar ainda mais espaço no debate público nos próximos meses. O evento Logística do Futuro 2026, realizado pela MundoLogística nos dias 9 e 10 de setembro, no Transamerica Expo Center, em São Paulo, terá o transporte multimodal como um dos eixos centrais das discussões conforme a programação divulgada para o encontro. Para quem acompanha o setor, o encontro deve funcionar como um termômetro de quanto os anúncios recentes já se traduziram em mudanças concretas na operação das empresas. Brazil Modal
Os dados mostram um Brasil em transformação, mas ainda distante de um equilíbrio real entre os modais de transporte. A cabotagem e as ferrovias crescem, ganham investimento e conquistam espaço no discurso do governo e das empresas, mas o caminhão continua sendo o protagonista do escoamento da produção nacional. Para transportadoras e embarcadores, o desafio prático é decidir quando vale a pena migrar parte da operação para outros modais, considerando custo, prazo e infraestrutura disponível em cada região. A resposta, ao que tudo indica, não será igual para todo o país.
Fontes consultadas:
https://mundologistica.com.br/noticias/cabotagem-e-ferrovias-multimodal-esta-saindo-do-papel
https://brazilmodal.com.br/cabotagem-e-ferrovias-o-multimodal-esta-saindo-do-papel/