SRE e ITIL não competem entre si: O equívoco mais comum na gestão de operações

Diego Velázquez
Diego Velázquez 5 Min de leitura
Rolando Bonaccorsi

Poucas discussões geram tanta polarização desnecessária em times de tecnologia quanto a suposta rivalidade entre SRE e ITIL. Rolando Bonaccorsi, especialista em gestão de operações de TI e excelência em serviços, costuma observar que essa disputa surge principalmente entre profissionais que conhecem apenas superficialmente uma das duas abordagens, e não entre quem efetivamente as implementou em ambientes de produção complexos.

Entender por que essas metodologias se complementam, em vez de se substituírem, é conhecimento que separa operações de fato maduras de operações que apenas trocaram o vocabulário sem mudar a prática por trás dele.

Origens diferentes, problemas parecidos

O ITIL nasceu nos anos 1980, no contexto de governo britânico, como framework para padronizar gestão de serviços de TI em organizações grandes e frequentemente burocráticas. Sua força está em processos bem definidos para gestão de mudanças, incidentes e problemas, com papéis e responsabilidades claros que funcionam bem em estruturas hierárquicas tradicionais.

O SRE, por sua vez, nasceu dentro do Google no início dos anos 2000, como resposta ao desafio de operar sistemas em escala planetária com equipes de engenharia relativamente enxutas. Sua filosofia trata confiabilidade como propriedade de engenharia, mensurável através de objetivos de nível de serviço e orçamentos de erro, não como conjunto separado de processos administrativos aplicados sobre o sistema depois de pronto.

Onde as abordagens se encontram na prática

Empresas maduras combinam a estrutura de governança do ITIL, especialmente em gestão de mudanças e catálogo de serviços, com a cultura de engenharia orientada a dados do SRE. O processo de gestão de incidentes do ITIL, por exemplo, ganha muito quando incorpora conceitos de SRE, como orçamento de erro, para decidir a urgência real de cada correção, em vez de tratar toda falha com a mesma prioridade máxima.

Conforme observa Rolando Bonaccorsi, tentar substituir integralmente um framework consolidado como ITIL por SRE, ou vice-versa, costuma ser decisão movida por modismo mais do que por análise honesta da realidade operacional da empresa. Organizações reguladas, por exemplo, frequentemente precisam manter trilhas de auditoria e aprovações formais que o ITIL já resolve bem, ao mesmo tempo em que se beneficiam de métricas de confiabilidade típicas do SRE.

O erro de importar cultura sem contexto

Um erro recorrente é tentar implantar práticas de SRE copiando literalmente o modelo de empresas como Google ou Netflix, ignorando que essas organizações têm escala, maturidade de engenharia e tolerância a risco completamente diferentes da maioria das empresas tradicionais. Adotar orçamento de erro sem antes ter observabilidade confiável, por exemplo, produz decisões baseadas em dados incompletos, que é justamente o problema que o método deveria evitar.

Para Rolando Bonaccorsi, a pergunta certa nunca é qual framework escolher, e sim quais elementos de cada um resolvem o problema específico daquela operação, considerando maturidade atual do time, exigências regulatórias do setor e apetite real da liderança para tolerar risco controlado em nome de maior velocidade de entrega.

Maturidade se mede por resultado, não por vocabulário

Times que adotam a terminologia de SRE, com objetivos de nível de serviço e orçamentos de erro no papel, mas continuam tratando toda mudança em produção com o mesmo processo burocrático de aprovação manual do ITIL mais rígido, não avançaram em maturidade real. Mudaram apenas o vocabulário usado nas reuniões, o que é reconhecível rapidamente por qualquer avaliação externa séria.

De acordo com a análise de Rolando Bonaccorsi, o indicador mais confiável de maturidade operacional não é qual framework a empresa segue oficialmente, mas a velocidade com que ela detecta, prioriza corretamente e resolve incidentes reais, combinada à frequência com que consegue implantar mudanças sem gerar indisponibilidade. Esses números não mentem, independentemente de qual sigla está no slide de apresentação.

No fim, a dicotomia entre SRE e ITIL diz mais sobre insegurança de mercado e disputa de narrativa entre consultorias do que sobre a realidade de quem opera sistemas críticos todos os dias. As organizações que entregam confiabilidade de forma consistente há anos raramente participam dessa discussão, ocupadas em extrair o melhor de cada abordagem para o contexto específico que precisam resolver.

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