O Brasil utiliza economicamente 20,4 mil quilômetros de vias navegáveis interiores para o transporte de cargas, menos da metade da extensão prevista no Plano Nacional de Viação. O dado faz parte do estudo “Regulação e governança da navegação interior brasileira”, divulgado pela Confederação Nacional do Transporte (CNT).
De acordo com o levantamento, o planejamento nacional considera uma malha de 41,7 mil quilômetros para a navegação interior. A diferença entre o potencial previsto e a extensão efetivamente utilizada evidencia um espaço ainda não aproveitado na infraestrutura brasileira de transporte de mercadorias, especialmente em um país com grandes rios e longas distâncias entre áreas produtoras, centros de consumo e terminais.
Estudo propõe medidas até 2046
A análise da CNT apresenta propostas de curto, médio e longo prazos, com horizonte até 2046. O objetivo é enfrentar entraves regulatórios e de governança que afetam a expansão e a operação das hidrovias para transporte de cargas no Brasil. O documento trata da necessidade de organizar ações públicas e de dar maior previsibilidade à infraestrutura utilizada pela navegação interior.
Entre as medidas defendidas está a garantia de recursos para a continuidade do Programa de Operação e Manutenção de Eclusas, conhecido como Proeclusas. As eclusas são estruturas essenciais em trechos com desníveis, pois permitem que as embarcações avancem pelos rios. A manutenção regular desse sistema é apresentada como parte das condições necessárias para preservar a operação hidroviária.
O estudo também propõe a adoção de concessões à iniciativa privada para modernizar a infraestrutura existente. A medida é apontada pela CNT como alternativa para ampliar a capacidade operacional e melhorar as condições dos corredores de navegação. A proposta está inserida em uma discussão mais ampla sobre o papel do poder público e dos operadores privados na gestão dos ativos hidroviários.
Corredor entre Rondônia e Amazonas tem perda operacional
Um dos exemplos citados no estudo envolve o corredor entre Porto Velho, em Rondônia, e Itacoatiara, no Amazonas. Nesse trecho, o tempo de viagem passou de oito para 20 dias. No mesmo período, a capacidade de transporte foi reduzida em 60%, segundo os dados apresentados pela CNT.
A mudança afeta uma rota relevante para a conexão entre a região Norte e os demais pontos da cadeia logística brasileira. O aumento do tempo de deslocamento reduz a eficiência do transporte, enquanto a queda na capacidade limita o volume de cargas que pode ser movimentado em cada operação. Para empresas que dependem de fluxos regulares, essas restrições podem dificultar o planejamento de estoques e entregas.
O caso também ilustra como as condições de infraestrutura interferem diretamente no desempenho dos modais. A navegação interior pode transportar grandes volumes por longas distâncias, mas depende de vias em condições adequadas, estruturas operacionais funcionais e regras capazes de sustentar investimentos e manutenção ao longo do tempo.
Hidrovias ampliam alternativas para o transporte de cargas
Na avaliação apresentada pela CNT, o uso mais amplo das hidrovias pode contribuir para diversificar a matriz de transporte brasileira. Hoje, a movimentação de mercadorias no país enfrenta desafios relacionados à extensão territorial, à concentração de determinados fluxos e à necessidade de integração entre rodovias, ferrovias, portos e vias navegáveis.
A navegação interior se conecta a essa rede por meio de terminais e corredores que fazem a transferência das cargas entre diferentes modais. Quando um trecho hidroviário perde capacidade ou apresenta aumento expressivo no tempo de viagem, o impacto pode alcançar outras etapas da operação logística. Por isso, o estudo relaciona a governança das hidrovias à eficiência do sistema de transporte como um todo.
Os dados e propostas foram repercutidos pelo jornal O Tempo, que destacou a diferença entre a extensão prevista no planejamento nacional e a parcela atualmente utilizada para o transporte de mercadorias. A discussão coloca a infraestrutura hidroviária entre os pontos que podem influenciar a competitividade e a capacidade de escoamento da produção brasileira.