Conforme ressalta Yuri Silva Portela, pós-graduado em geriatria, a pandemia de COVID-19 acelerou de forma dramática a adoção de videochamadas como principal meio de contato entre idosos e seus familiares distantes, transformando uma tecnologia que muitos idosos nunca haviam usado em parte do cotidiano de milhões de famílias brasileiras.
Esse experimento involuntário em larga escala produziu dados valiosos sobre o que as videochamadas realmente oferecem à saúde mental do idoso e sobre os limites que a tela interpõe entre a conexão real e a sua simulação digital. Neste artigo, apresentamos o que a ciência e a experiência clínica demonstram sobre essa ferramenta e como usá-la de forma que genuinamente beneficie o idoso.
O que as videochamadas realmente oferecem ao idoso?
Quando bem implementadas, as videochamadas oferecem benefícios reais e mensuráveis sobre a saúde mental do idoso. Até porque ver o rosto de um familiar querido ativa circuitos cerebrais associados ao reconhecimento e ao vínculo afetivo que a voz isolada não consegue estimular com a mesma intensidade. A possibilidade de mostrar o próprio ambiente, de apontar para algo no quarto, de incluir um animal de estimação na conversa ou de apresentar um prato que acabou de preparar cria uma sensação de presença compartilhada que enriquece significativamente a qualidade da interação em comparação com a chamada de voz convencional.
Como detalha Yuri Silva Portela, estudos realizados durante e após a pandemia demonstram que idosos com acesso regular a videochamadas apresentaram menores taxas de depressão e solidão do que aqueles restritos a chamadas de voz, especialmente quando as videochamadas faziam parte de uma rotina previsível de contato com familiares e amigos. A previsibilidade é um elemento frequentemente subestimado: saber que toda terça-feira às 19h haverá uma chamada com o filho oferece ao idoso um ponto de antecipação positiva que estrutura a semana e sustenta o senso de pertencimento.
Quando a videochamada cria uma ilusão de conexão
Apesar dos benefícios reais, as videochamadas têm limitações que se tornam clinicamente relevantes quando substituem completamente o contato presencial em vez de complementá-lo. O contato físico, o toque, o abraço, o compartilhamento de um espaço e de um cheiro são dimensões da conexão humana que nenhuma tela consegue transmitir. Para o idoso que vive sozinho e cujos familiares justificam a ausência presencial com a regularidade das videochamadas, a tecnologia pode criar uma sensação de que o cuidado está sendo oferecido, quando, na verdade, apenas sua representação digital está presente.

Na avaliação de Yuri Silva Portela, há um risco específico nessa dinâmica: a família que se sente aliviada pela frequência das videochamadas pode deixar de perceber sinais de deterioração clínica que só seriam visíveis presencialmente. A perda de peso, a higiene comprometida, o ambiente domiciliar desordenado, a marcha instável e a expressão facial de dor ou confusão são informações que a câmera de um celular frequentemente não captura com a fidelidade necessária para alertar quem está do outro lado da tela.
Barreiras tecnológicas que excluem o idoso da conexão digital
Para que as videochamadas beneficiem genuinamente o idoso, ele precisa conseguir usá-las com suficiente autonomia e conforto. Essa premissa é frequentemente ignorada por familiares que instalam aplicativos, explicam rapidamente como usar e esperam que o idoso domine a tecnologia sozinho. Afinal, dificuldades com visão que comprometem a leitura da tela, tremor que dificulta o toque preciso nos ícones, perda auditiva que torna o áudio incompreensível e declínio cognitivo que impede a memorização dos passos necessários são barreiras reais que transformam a videochamada de recurso de conexão em fonte de frustração e exclusão.
Conforme aponta Yuri Silva Portela, investir tempo em treinar o idoso no uso da tecnologia, adaptar o dispositivo às suas limitações sensoriais e motoras e simplificar ao máximo o processo de iniciar uma chamada são condições necessárias para que a videochamada seja genuinamente útil. De fato, um tablet com botão único que inicia a chamada com o familiar mais próximo pode ser mais eficaz do que um smartphone sofisticado que o idoso não consegue operar sozinho.
Como usar videochamadas de forma que realmente beneficie o idoso?
Para que as videochamadas produzam benefícios reais sobre a saúde mental do idoso, algumas práticas fazem diferença concreta. Estabelecer horários regulares e previsíveis é mais valioso do que chamadas frequentes, mas imprevisíveis. Garantir que a conversa tenha substância, compartilhando eventos reais da vida de quem liga, e não apenas perguntas sobre como o idoso está, cria uma reciprocidade que fortalece o vínculo. Além disso, incluir outros membros da família, especialmente netos, nas chamadas produz interações intergeracionais com valor cognitivo e afetivo adicional.
Na visão de Yuri Silva Portela, a videochamada é uma ferramenta valiosa que a medicina geriátrica deve incorporar às orientações de cuidado ao idoso, mas sempre com a clareza de que ela complementa o contato presencial e nunca o substitui. Até porque o rosto na tela que o idoso vê toda semana não aquece como o abraço que ele precisa receber todo mês.