Dependência do transporte rodoviário, baixa expansão da capacidade de armazenagem e custo elevado do crédito pressionam a eficiência da cadeia produtiva e dificultam o escoamento da produção nacional
Crescimento da produção esbarra em limitações logísticas
O agronegócio brasileiro vem ampliando sua produção e incorporando novas tecnologias às atividades dentro das propriedades rurais, mas o avanço da produtividade não tem sido acompanhado na mesma velocidade pela infraestrutura necessária para transportar e armazenar as mercadorias. Dados apresentados em 24 de setembro apontam que antigos problemas relacionados a rodovias, ferrovias, armazenagem e portos continuam afetando a eficiência da cadeia produtiva. O cenário ganha importância principalmente diante do crescimento da produção de grãos no Centro-Oeste, região que concentra uma parcela significativa da produção agrícola brasileira.
Um dos principais pontos levantados é a capacidade de armazenamento. No segundo semestre de 2025, a estrutura brasileira para armazenar grãos avançou apenas 1% em relação ao período anterior, enquanto a produção agrícola continua crescendo. Esse descompasso pode criar dificuldades durante períodos de colheita, quando grandes volumes de produtos precisam ser retirados das propriedades e direcionados para armazéns, centros de distribuição, indústrias ou portos.
A insuficiência de armazenagem também interfere na estratégia comercial dos produtores. Quando não há espaço adequado para manter a produção, parte dos agricultores pode ficar mais pressionada a vender os grãos logo após a colheita, reduzindo a capacidade de escolher o momento mais adequado para comercializar a safra. Além da questão financeira, essa concentração de cargas em determinados períodos aumenta a pressão sobre rodovias, terminais e demais estruturas utilizadas para o transporte.
O problema é particularmente relevante para o Centro-Oeste, onde a expansão agrícola ocorreu em ritmo acelerado ao longo das últimas décadas. A região ampliou sua participação na produção nacional, mas a infraestrutura de transporte e armazenagem não cresceu necessariamente na mesma proporção. Com isso, o aumento da produção precisa ser acompanhado por investimentos em corredores logísticos capazes de levar as mercadorias até os centros consumidores e os portos.
Dependência das rodovias aumenta pressão sobre o transporte
Outro ponto central do debate é a elevada participação do transporte rodoviário na movimentação de cargas brasileiras. Segundo informações apresentadas na reportagem, aproximadamente 65% do transporte de cargas no país é realizado por rodovias. A concentração cria uma dependência significativa de estradas, caminhões, combustíveis e condições de tráfego, fazendo com que problemas em determinados corredores possam repercutir diretamente sobre os custos e os prazos de entrega.
A situação ganha ainda mais importância quando se trata de produtos agrícolas, que frequentemente percorrem grandes distâncias entre as áreas de produção e os destinos finais. O transporte de grãos do Centro-Oeste até portos ou mercados consumidores pode envolver centenas ou milhares de quilômetros. Quanto maior a distância percorrida por rodovias, maior tende a ser a exposição da operação aos preços do diesel, às condições das estradas, aos pedágios e à disponibilidade de veículos.
A diversificação da matriz de transportes aparece, por isso, como uma das alternativas discutidas pelo setor. A reportagem destaca que o Brasil possui cerca de 30 mil quilômetros de ferrovias, mas somente aproximadamente 12 mil quilômetros seriam utilizados economicamente. A expansão da utilização dos trilhos e a melhoria dos rios navegáveis são apontadas como caminhos para reduzir a concentração das cargas nas rodovias.
A ampliação dos corredores ferroviários e hidroviários também pode favorecer a integração entre diferentes modais. Caminhões continuariam importantes para realizar trajetos de curta distância e conectar propriedades, armazéns e terminais, enquanto ferrovias e hidrovias poderiam assumir parte dos deslocamentos de longa distância. Esse modelo multimodal pode permitir uma organização mais diversificada do transporte e ampliar as opções disponíveis para o escoamento da produção.
Custo do crédito dificulta novos investimentos
Além dos problemas físicos de infraestrutura, o setor enfrenta dificuldades relacionadas ao financiamento. O custo elevado do crédito pode limitar a capacidade de produtores e empresas de investir em máquinas, armazéns, propriedades e estruturas logísticas. De acordo com os dados apresentados na reportagem, mais de 80% do crédito utilizado atualmente pelo agronegócio depende de capital privado, o que aumenta a exposição do setor às condições de financiamento disponíveis no mercado.
O impacto dos juros é especialmente relevante para investimentos de longo prazo. A construção de silos, centros de distribuição, terminais e outras estruturas exige recursos elevados e períodos prolongados para recuperar o capital investido. Quando o financiamento fica mais caro, projetos que poderiam ampliar a capacidade logística podem ser adiados ou redimensionados, mantendo gargalos existentes por mais tempo.
Para o produtor rural, o custo financeiro também pode se somar às despesas de produção e transporte. A aquisição de máquinas, a manutenção de equipamentos, a contratação de serviços e a necessidade de financiar a própria produção fazem parte da estrutura de custos do setor. Quando essas despesas aumentam simultaneamente, sobra menos espaço para investimentos destinados à melhoria da infraestrutura própria de armazenagem e movimentação.
O cenário também pode afetar a capacidade de expansão de pequenos e médios produtores. Enquanto grandes empresas podem ter maior acesso a diferentes fontes de financiamento e estruturas próprias, produtores menores podem depender mais de crédito externo e de serviços logísticos contratados. Nesse contexto, o custo do dinheiro passa a ser mais um fator que influencia a competitividade das diferentes cadeias produtivas.
Ferrovias e hidrovias aparecem como alternativas
A ampliação do transporte ferroviário e hidroviário aparece como uma das principais alternativas para reduzir a dependência das rodovias. A utilização desses modais pode ser especialmente relevante para cargas agrícolas de grande volume, que precisam percorrer longas distâncias antes de chegar aos portos ou aos mercados consumidores. A reportagem cita a necessidade de avançar tanto na construção de ferrovias quanto na melhoria das condições de navegação dos rios brasileiros.
Entre os projetos associados a essa estratégia está a expansão de corredores ferroviários em direção ao Centro-Oeste. A ligação com áreas como Lucas do Rio Verde, em Mato Grosso, e a conexão com estruturas do Arco Norte são apresentadas como alternativas para ampliar as rotas de escoamento da produção. O fortalecimento desses corredores pode criar novas opções para produtores que atualmente dependem de trajetos tradicionais até portos de outras regiões.
Os portos do chamado Arco Norte ganharam importância justamente por sua proximidade com grandes áreas produtoras do Centro-Oeste e por oferecerem alternativas de saída para a produção agrícola. A expansão de ferrovias e hidrovias conectadas a esses terminais pode modificar gradualmente a distribuição dos fluxos de carga pelo território brasileiro. Com mais opções disponíveis, operadores logísticos podem combinar diferentes rotas conforme as características de cada mercadoria.
A melhoria da infraestrutura, entretanto, depende de investimentos contínuos e de integração entre diferentes projetos. Não basta construir um trecho ferroviário isolado se ele não estiver conectado a terminais, armazéns, portos e rodovias capazes de completar o percurso. Por isso, o planejamento logístico precisa considerar toda a cadeia de transporte, desde a propriedade rural até o destino final da mercadoria.
Tecnologia passa a fazer parte da solução logística
A tecnologia também aparece como um componente importante da modernização da cadeia logística do agronegócio. Com o crescimento das exigências relacionadas à origem dos produtos, sustentabilidade e transparência, sistemas capazes de registrar e compartilhar informações sobre a produção podem ganhar espaço. A rastreabilidade permite acompanhar diferentes etapas da cadeia, desde a produção até a comercialização e o transporte.
Entre as ferramentas mencionadas está o blockchain, que pode ser utilizado para registrar informações de maneira distribuída e facilitar a verificação de dados relacionados à origem das mercadorias. No comércio internacional, esse tipo de informação pode se tornar cada vez mais relevante, especialmente para compradores interessados em comprovar aspectos ambientais e produtivos associados aos produtos adquiridos.
A digitalização também pode contribuir para melhorar a gestão dos fluxos de transporte. Sistemas de acompanhamento de cargas, plataformas de planejamento de rotas e ferramentas de análise de dados podem ajudar empresas a identificar gargalos e organizar melhor suas operações. Embora a tecnologia não substitua investimentos físicos em estradas, ferrovias, hidrovias e armazéns, ela pode aumentar a eficiência das estruturas existentes.
Dessa forma, o desafio logístico do agronegócio brasileiro envolve diferentes fatores que precisam ser analisados em conjunto. O crescimento da produção exige maior capacidade de armazenagem e transporte, enquanto a dependência das rodovias, o custo do crédito e a necessidade de ampliar ferrovias e hidrovias pressionam empresas e produtores. Ao mesmo tempo, tecnologias de rastreabilidade e gestão de dados podem ajudar a tornar a cadeia mais eficiente e transparente.
Fonte: Planeta Campo – Logística vira gargalo para o avanço do agro brasileiro